Tratamento clínico para nervo comprimido rivaliza com cirurgia, diz estudo
Pacientes que sofrem com compressão de nervo na coluna cervical podem não precisar, necessariamente, passar por uma cirurgia para recuperar a qualidade de vida. Uma análise recente com 323 pessoas apontou que a reabilitação clínica, feita com fisioterapia e medicamentos, alcança o mesmo nível de recuperação funcional que um procedimento cirúrgico após doze meses de acompanhamento. O estudo foi conduzido por pesquisadores de instituições de São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul e publicado na revista científica Coluna/Columna nesta sexta-feira (4).
O que é a radiculopatia cervical
A condição estudada é a radiculopatia cervical, um problema que surge quando um nervo é comprimido por uma hérnia de disco ou pelo desgaste natural das vértebras. O quadro clínico é marcado por dor aguda que trava o pescoço, irradia para os braços e pode impedir tarefas rotineiras como dormir ou dirigir. Diante desse cenário incapacitante, a escolha entre a via cirúrgica e o tratamento conservador sempre foi um dilema para médicos e pacientes.
Para chegar a essa conclusão, os cientistas cruzaram dados de quatro ensaios clínicos distintos e mediram a evolução da incapacidade de movimento nos voluntários submetidos às duas abordagens terapêuticas. O objetivo era mapear qual rota oferecia o alívio mais eficaz para sintomas como dor intensa, formigamento e perda de força muscular.
Resultados e tempo de recuperação
A principal descoberta é que o diagnóstico de radiculopatia cervical não deve ser visto como uma sentença que leva automaticamente ao centro cirúrgico. A análise estatística não encontrou diferença significativa entre os dois métodos quando avaliada a capacidade do paciente de retomar suas atividades diárias após um ano de acompanhamento.
Contudo, o estudo revela uma diferença importante no tempo de resposta. A cirurgia proporciona um alívio mais rápido da incapacidade já nos primeiros três a seis meses. Já o tratamento conservador age de forma gradual: o paciente evolui mês a mês até igualar o patamar de melhora do grupo que operou na marca de um ano. A única vantagem que persiste para os operados após esse período é uma diferença mínima na escala de dor.
Ressalvas da pesquisa
Os próprios pesquisadores fazem uma ressalva importante sobre os resultados. A equivalência funcional observada aos 12 meses é sensível à composição da amostra. Quando um dos quatro estudos analisados — que testava uma técnica cirúrgica distinta das demais — foi retirado da equação, a balança passou a pender estatisticamente para o grupo que passou por cirurgia. Isso reforça a necessidade de novos estudos para consolidar o achado.
Implicações para a escolha do tratamento
A decisão sobre o melhor caminho deve ser individualizada. Para um paciente com dor intensa, limitação severa ou que não respondeu ao tratamento conservador, o benefício extra da cirurgia pode ser decisivo. Por outro lado, para quem está evoluindo bem sem operar, uma pequena diferença na dor pode não justificar os riscos de um procedimento invasivo.
Vale lembrar que cirurgias na coluna exigem infraestrutura hospitalar complexa, internação e carregam riscos inerentes a qualquer ato cirúrgico. Nesse contexto, a adoção de terapias conservadoras bem orientadas se firma como uma estratégia inicial segura para pacientes elegíveis, liberando leitos e direcionando recursos cirúrgicos para casos urgentes ou refratários ao tratamento clínico.
