Rede de frio das vacinas enfrenta calor, enchentes e apagões no Brasil

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A viagem gelada da vacina: como calor, enchentes e apagões ameaçam cada dose de imunizantes no Brasil

A aplicação de uma vacina leva apenas alguns segundos, mas o percurso até o braço do paciente é uma jornada complexa que exige refrigeração constante. Para que o imunizante mantenha sua eficácia, a temperatura precisa ser controlada desde a fabricação até o posto de saúde, um sistema conhecido como rede de frio. No entanto, as mudanças climáticas têm imposto desafios crescentes a essa estrutura, com calor extremo, enchentes e quedas de energia ameaçando a potência das doses.

A importância da temperatura ideal para os imunizantes

A preservação das vacinas depende de um rigoroso controle térmico, mantendo-as entre 2 e 8 graus Celsius. Paulo Ernesto Gewehr Filho, representante da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) no Rio Grande do Sul, explica que esses produtos são termolábeis e precisam dessa faixa de temperatura para não perderem suas propriedades. Quando expostas a temperaturas inadequadas, as proteínas dos imunizantes podem se modificar, comprometendo a proteção e, em alguns casos, aumentando o risco de reações adversas. Doses que passaram por essas variações são isoladas e investigadas em um processo chamado “excursão de temperatura” para avaliar se ainda podem ser utilizadas.

Impactos distintos do El Niño na conservação das doses

O fenômeno El Niño não age de forma uniforme no país, criando cenários opostos que complicam a logística. De acordo com uma nota técnica do Ministério da Saúde, baseada em dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o fenômeno deve provocar chuvas intensas no Norte e Nordeste, com risco de enchentes na Amazônia, enquanto o Sul e Sudeste podem enfrentar seca e ondas de calor. O calor é uma preocupação central, pois faz os equipamentos de refrigeração trabalharem mais, e em caso de falta de energia, a temperatura interna pode subir rapidamente. No Norte, a seca também afeta o transporte fluvial de doses para comunidades isoladas.

Enchentes no Rio Grande do Sul expõem fragilidades do sistema

A enchente que atingiu o Rio Grande do Sul em 2024 serviu como um alerta sobre a vulnerabilidade da rede de frio. Com postos de saúde submersos e campanhas interrompidas, a perda de doses foi significativa. Juarez Cunha, infectologista e diretor da SBIm, observou que a resposta em situações como essa envolve ações emergenciais, como vacinar pessoas em abrigos durante a campanha contra a gripe. A experiência reforça a necessidade de um planejamento prévio para lidar com desastres, em vez de apenas reagir a eles.

Eventos climáticos também impulsionam doenças

Além de atrapalhar a vacinação, eventos climáticos extremos criam condições propícias para a propagação de doenças. Enchentes favorecem a contaminação da água, aumentando o risco de hepatite A, infecções intestinais e leptospirose. Já o calor e o acúmulo de água parada ampliam a proliferação de mosquitos transmissores de dengue, zika e chikungunya. Em abrigos lotados, doenças respiratórias como gripe e sarampo encontram fácil transmissão. A aliança internacional Gavi destaca que o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) já reconhece a vacinação como uma ferramenta de adaptação, alertando que a maioria das doenças infecciosas pode piorar com o aquecimento global.

Populações vulneráveis são as mais atingidas

O impacto de uma interrupção na vacinação não é sentido igualmente por todos. Crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças crônicas são mais suscetíveis. Profissionais que atuam em resgates, como bombeiros e voluntários, também correm maior risco de tétano e hepatite A. O recorte social é outro fator crucial: populações com menos infraestrutura e saneamento sofrem de forma mais intensa, perdendo não apenas o acesso à saúde, mas também suas casas e redes de apoio.

Estratégias para fortalecer a rede de frio

Para mitigar esses riscos, o Ministério da Saúde elaborou um plano com diretrizes para estados e municípios, incluindo a manutenção de geradores de energia, o monitoramento constante da temperatura e o estabelecimento de rotas alternativas de transporte. Um ponto-chave é o alarme quando o termômetro se aproxima dos 7 graus, permitindo que a equipe organize a transferência das doses para outro local antes que atinjam o limite máximo de 8 graus. Essas ações fazem parte do AdaptaSUS, o plano do setor de saúde para se adaptar às mudanças climáticas. No entanto, especialistas como Cunha ressaltam que a proteção da rede de frio é apenas uma parte do desafio, sendo essencial um planejamento mais amplo que garanta o acesso à saúde como um todo.

A recomendação dos especialistas é clara: antecipar-se aos problemas. Manter o calendário de vacinação em dia é a forma mais eficaz de reduzir o impacto de uma eventual interrupção, pois quanto mais pessoas estiverem protegidas, menor será o vazio deixado por um serviço paralisado. Com a tendência de aumento de desastres climáticos, a capacidade de adaptação da rede de frio será testada com mais frequência, exigindo aprendizado contínuo e planejamento robusto para garantir que as vacinas cheguem ao seu destino final em plenas condições de proteger a população.

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