O Faraó está preso. O dinheiro da Região dos Lagos não voltou.
Cinco anos depois da operação que parou Cabo Frio, a empresa faliu, 62 mil pessoas entraram na fila de credores — e ninguém sabe dizer quantas delas são de Rio das Ostras.
Cinco anos depois da operação que parou Cabo Frio, a empresa faliu, 62 mil pessoas entraram na fila de credores — e ninguém sabe dizer quantas delas são de Rio das Ostras.
Em agosto de 2021, a Polícia Federal prendeu Glaidson Acácio dos Santos na Operação Kryptos. A empresa dele, a G.A.S. Consultoria e Tecnologia, funcionava em Cabo Frio e prometia dez por cento ao mês em bitcoin. Vizinho contava para vizinho. Foi assim que chegou em toda a Região dos Lagos.
Ele segue preso, hoje na Penitenciária Federal de Catanduvas, no Paraná. Em 2 de outubro de 2025 foi condenado a 19 anos e 2 meses pela 1ª Vara Especializada em Organizações Criminosas do Tribunal de Justiça do Rio, por organização criminosa e corrupção ativa — processo que veio da Operação Novo Egito. O sócio Daniel Aleixo Guimarães pegou 16 anos e 4 meses. Outros processos continuam correndo, inclusive um por homicídio, que ainda vai a júri.
A empresa faliu. A conta ficou.
Em 18 de maio de 2025, a 5ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro decretou a falência da G.A.S. O rombo reconhecido foi de R$ 3,8 bilhões. Para entrar na fila de credores, 127.785 pessoas tentaram se habilitar; 62.604 conseguiram apresentar documentação válida. Sessenta e cinco mil ficaram pelo caminho — por papel que não existia, recibo que era print de conversa, dinheiro entregue na mão.
O pen drive no cofre da Polícia Federal
A parte que não fecha é o dinheiro. Uma carteira digital desconectada — um aparelho parecido com um pen drive — está guardada em cofre da Polícia Federal. Glaidson diz que sabe as senhas e se recusa a informar o saldo, alegando risco à própria segurança. Perguntado em juízo se daria para pagar todo mundo, respondeu que sim.
Enquanto ele já estava preso, em agosto de 2021, 4.500 bitcoins saíram de uma conta ligada ao grupo — na cotação da época, mais de um bilhão de reais. A mulher e sócia, Mirelis Diaz Zerpa, foi presa em Chicago em 2024 e deportada para o Brasil em 2025.
Quantos dos 62.604 credores moram em Rio das Ostras. Esse número não foi publicado por ninguém, e não vamos inventar. A lista de habilitados existe e é do processo de falência da 5ª Vara Empresarial do Rio. O Aky Notícias vai pedir. Quando a resposta chegar, publicamos — inclusive se a resposta for “não temos”.
Quem tem recibo, contrato ou comprovante de depósito é credor no processo de falência e pode se habilitar no juízo da 5ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro. Quem não conseguiu se habilitar no prazo deve procurar o cartório da vara para saber se ainda há caminho. Propostas parecidas que continuam circulando na região vão para a delegacia e para a Comissão de Valores Mobiliários, que é quem fiscaliza oferta de investimento no Brasil.
A lição que sobrou para a Região dos Lagos não é sobre bitcoin. É sobre a promessa. Dez por cento ao mês, garantidos, não existe — nem em cripto, nem em imóvel, nem em gado. Quando existir, vai ser exatamente assim: pelo vizinho, com pressa, e sem papel.
Não verificado nesta edição: quantos credores são de Rio das Ostras; o saldo da carteira sob guarda da Polícia Federal; e se houve recurso da condenação de outubro de 2025. Nenhuma vítima é nomeada nesta reportagem.
