Idoso espera há dois meses por psiquiatra em Niterói
A demora por uma consulta especializada virou rotina para a família de um idoso de 78 anos em Niterói. Manoel Severino da Silva Fernandes de Oliveira, que vive com esquizofrenia, sofreu um AVC isquêmico e enfrenta sérias limitações para se locomover, aguarda há cerca de dois meses por uma definição sobre seu acompanhamento psiquiátrico na rede pública municipal.
Família relata falta de resposta após encaminhamento
O sobrinho do paciente, Stenio Rubens, relatou que a busca por ajuda começou no Programa Médico de Família do Cantagalo. No local, Manoel recebeu o encaminhamento para um psiquiatra. Devido à condição de saúde mental e à grande dificuldade de caminhar, a família também acionou o CAPS responsável pela região.
Segundo Stenio, houve contato com uma profissional do serviço, que se comprometeu a levar o caso ao psiquiatra da unidade. Desde então, a família afirma que segue sem qualquer retorno ou solução concreta.
A situação expõe uma falha na articulação da rede: o paciente passou pela atenção básica, obteve o encaminhamento e chegou ao serviço especializado com a informação sobre sua limitação de mobilidade. O problema não está em encontrar o caminho, mas em fazer com que o atendimento aconteça de fato.
Estrutura da rede prevê atendimento no território
Dados oficiais da Secretaria Municipal de Saúde indicam que o caso de Manoel se enquadra no perfil de atendimento da rede de saúde mental. O CAPS II Martha e Dr. Jacinto, localizado no Largo da Batalha, é a unidade de referência para adultos em sofrimento psíquico grave na região.
Entre os serviços oferecidos pela unidade, conforme divulgação da Prefeitura, estão atendimentos individuais e em grupo, ações de cuidado em situações de crise tanto no serviço quanto no território e a realização de visitas domiciliares. A equipe é multiprofissional e conta com psiquiatra, psicólogo, assistente social, terapeuta ocupacional e enfermeiro.
O CAPS fica na Travessa Nossa Senhora de Fátima, 76, e realiza acolhimento de segunda a sexta, das 9h às 17h, com horário reduzido às quartas-feiras até as 12h. Os contatos são (21) 3613-2189 e (21) 97031-4469.
Pelas regras do Ministério da Saúde, os CAPS funcionam em regime de porta aberta para o primeiro acolhimento, sem necessidade de agendamento prévio. A equipe deve avaliar a necessidade do usuário, elaborar um plano de cuidado e, se for o caso, articular com outro ponto da Rede de Atenção Psicossocial.
Diante desse cenário, a espera prolongada sem uma definição clara é vista como uma falha. Quando um paciente de 78 anos não consegue se deslocar, a resposta não pode ser apenas a promessa de análise. É preciso definir a responsabilidade pelo acompanhamento e considerar seriamente a possibilidade de atendimento em casa.
Ambulatório no Largo da Batalha também atende a região
Outra alternativa listada na rede é o Ambulatório Ampliado de Saúde Mental da Policlínica Regional do Largo da Batalha, que tem o Cantagalo em sua área de abrangência. O serviço está localizado na Rua Reverendo Armando Ferreira, 30, e o telefone para contato é (21) 96955-8210.
Para famílias em situações parecidas, a cobrança precisa ser direta: saber qual unidade vai assumir o caso, quando a avaliação será feita e de que forma o tratamento será garantido para quem não consegue ir até o serviço. O cidadão não pode virar um intermediário entre setores da mesma rede.
Saiba como agir diante da falta de atendimento
Quando os contatos por telefone e os pedidos informais não geram resultado, o primeiro passo é organizar a documentação. É fundamental guardar o encaminhamento médico, laudos, receitas, relatórios que comprovem a dificuldade de locomoção, além de anotar datas e nomes dos profissionais contatados.
A orientação é procurar o CAPS novamente e solicitar formalmente a avaliação do caso, explicando a impossibilidade de deslocamento e pedindo a análise sobre a necessidade de uma visita domiciliar. Vale lembrar que a decisão de ir até a residência cabe à equipe técnica, mas o direito do paciente é ter seu caso avaliado e receber uma resposta compatível com sua condição.
Caso a resposta não venha, o próximo passo é registrar a queixa na Ouvidoria da Fundação Municipal de Saúde de Niterói. O canal oficial atende pelo WhatsApp (21) 96955-7808 e presencialmente na Rua Visconde de Sepetiba, 987, 8º andar, no Centro. O protocolo gerado transforma a reclamação em uma demanda formal contra a administração municipal.
Defensoria é alternativa se a rede não responder
Se o problema persistir e a demora colocar a saúde do paciente em risco, a família pode acionar a Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro. O telefone 129 funciona em dias úteis, das 9h às 18h, para orientação e agendamento. Há ainda a Câmara de Resolução de Litígios de Saúde (CRLS), que tenta resolver conflitos de acesso a medicamentos e serviços sem a necessidade de ação judicial. A unidade da capital fica na Rua da Assembleia, 77-A, no Centro do Rio.
Para moradores de Niterói, a recomendação é ligar primeiro para o 129 para confirmar o fluxo correto e evitar deslocamentos desnecessários até o Rio. Não há uma regra que obrigue a esperar um prazo fixo para buscar ajuda jurídica. Com demora relevante e necessidade médica comprovada, a situação pode ser levada à Defensoria para avaliação.
Encaminhamento não pode ser o fim da linha
O caso de Manoel Severino ilustra um ponto que precisa de correção urgente. Pelo relato da família, ele já percorreu o caminho esperado: entrou na rede, foi avaliado na atenção básica, recebeu o encaminhamento e teve sua necessidade apresentada ao serviço especializado. A partir daí, a resposta não pode ser apenas a espera.
As filas e a sobrecarga do sistema público são desafios reais, mas não eximem o poder público da responsabilidade de organizar o cuidado, ainda mais quando se trata de um idoso com transtorno mental grave, histórico de AVC e mobilidade muito reduzida. Como a estrutura oficial de Niterói prevê o atendimento no território e a visita domiciliar, essas ferramentas precisam funcionar para quem não consegue atravessar a cidade em busca de uma consulta.
Em situações de crise psiquiátrica severa, risco imediato para o paciente ou terceiros, mudança súbita do nível de consciência ou suspeita de novo problema neurológico, a orientação é não aguardar procedimentos administrativos. O socorro deve ser acionado imediatamente, inclusive pelo SAMU 192.
