Rock in Rio adota gestão circular para reduzir resíduos em escala
O Rock in Rio, que começa nesta sexta-feira (4), marca uma virada na gestão de megaeventos: a substituição do descarte pela circularidade. Festivais desse porte operam como verdadeiras cidades, com urgência logística e um fluxo imenso de pessoas, o que historicamente resultava em toneladas de resíduos. Agora, a pressão por métricas ambientais rigorosas faz o setor tratar a sustentabilidade como um ativo de reputação, inovação e eficiência financeira.
Desperdício de alimentos: um desafio concentrado
O excedente de comida é um dos pontos mais críticos. Segundo A.P., CEO e fundadora da Connecting Food, “grandes eventos não criam o problema do desperdício de alimentos, mas o concentram em poucas horas e o tornam muito mais visível”. A falta de alimentos representa um risco imediato para a experiência do público e para a imagem dos organizadores. Como o consumo varia conforme clima, horário e perfil dos participantes, as empresas de catering costumam operar com margens de segurança amplas.
Áreas de hospitalidade e camarotes agravam o cenário ao manter a cultura da abundância. A exigência de buffets visualmente completos até o fim da noite gera grandes volumes de refeições preparadas, com vida útil curta e alto risco de descarte.
Dados e planejamento para evitar sobras
A solução para o problema, tanto alimentar quanto estrutural, passa por uma mudança de mentalidade. As decisões precisam ser orientadas por dados antes mesmo da abertura dos portões. O planejamento logístico, combinado a tecnologias de monitoramento, permite prever padrões de consumo e desenvolver projetos que priorizem a longevidade dos recursos.
O objetivo é orquestrar toda a cadeia de suprimentos para que cada ingrediente servido ou cada viga instalada tenha uma destinação planejada e rastreável. Dessa forma, o evento se torna um laboratório prático de inovação socioambiental.
Produção escalonada e doações estruturadas
Para evitar que o alimento vire lixo, a tecnologia é essencial no monitoramento em tempo real das vendas e do consumo. Essa inteligência operacional permite ajustar reposições instantaneamente, transferir produtos entre pontos do evento e interromper preparos desnecessários. A lógica é trocar o cozimento antecipado de todo o volume por uma produção escalonada e cardápios estratégicos, com ingredientes versáteis e porções bem dimensionadas.
Quando o excedente é inevitável, o destino não pode ser decidido apenas na madrugada após os shows. “A doação de alimentos é muito mais uma operação de logística e coordenação do que simplesmente uma decisão de ‘não jogar fora'”, afirma A.P.. Na prática, isso envolve mapear organizações sociais, definir embalagens, estabelecer horários de transporte e treinar equipes logísticas para garantir que os alimentos cheguem com segurança e agilidade a quem precisa.
Estruturas reutilizáveis e eficiência energética
O combate ao descarte também se estende às ativações de marca. O pavilhão do Itaú, assinado pela Todos Projetos, exemplifica essa transição. Pelo segundo ano consecutivo no festival, o projeto reaproveita integralmente o esqueleto estrutural de ferro da edição anterior, eliminando acabamentos cenográficos descartáveis e reduzindo revestimentos de uso único.
A concepção do espaço também prioriza a redução da demanda energética. O uso de vãos livres favorece o conforto térmico natural e dispensa o ar-condicionado nas áreas de circulação do público, com refrigeração artificial restrita a salas operacionais. Além disso, a governança do projeto garante que resíduos sólidos da montagem e desmontagem, como metais, plásticos e MDF, tenham destinação sustentável, evitando aterros.
Legado de conhecimento para futuras edições
Com três andares de atrações, incluindo praças abertas e lounges, a estrutura mostra que o impacto visual de um megaevento não precisa ser um passivo ambiental. A coordenação de equipes e o alinhamento a metas de consumo responsável transformam investimentos efêmeros em ativos duradouros. Esse movimento gera aprendizado: como observa A.P., “se um festival registra quanto comprou, quanto produziu, quanto vendeu, quanto doou e quanto descartou, na edição seguinte ele consegue planejar melhor”.
