Pampa perde 11,3 milhões de hectares com avanço de monoculturas

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Pampa já perdeu 11,3 milhões de hectares em meio ao avanço da soja e da silvicultura

O avanço das monoculturas provocou a redução de 11,3 milhões de hectares da vegetação nativa do Pampa na América do Sul entre 1985 e 2024. No período, a área agrícola cresceu 33% e a silvicultura registrou expansão de 503% no bioma, que hoje mantém apenas metade da cobertura original de campos e biodiversidade.

MapBiomas revela cenário do bioma

Dados da Coleção 5 do MapBiomas Pampa, divulgados nesta sexta-feira, 4 de setembro, mostram que a vegetação nativa, que antes da colonização europeia cobria toda a região pampeana, agora ocupa cerca de 56 milhões de hectares. O levantamento foi feito por uma rede colaborativa de especialistas da Argentina, Brasil e Uruguai com uso de imagens de satélite.

Expansão da silvicultura no Rio Grande do Sul

Na porção brasileira do bioma, no Rio Grande do Sul, a área de silvicultura saltou de 44 mil hectares em 1985 para 738 mil hectares em 2024, um crescimento superior a 1.500%. As principais espécies plantadas são eucalipto, pinus e acácia. Já as áreas destinadas a cultivos anuais e perenes, com destaque para a soja, passaram de 4,8 milhões para 7,8 milhões de hectares, um aumento de 3 milhões de hectares, ou 63,2%.

Perda proporcional no Brasil

O avanço dessas monoculturas ajuda a explicar o fato de o Brasil ter a maior perda proporcional de vegetação nativa entre os países analisados. As pastagens e campos nativos no país encolheram de 12,4 milhões para 8,6 milhões de hectares, uma redução de 30%. A perda total foi de cerca de 3,7 milhões de hectares, área equivalente a 75 vezes a superfície do município de Porto Alegre (RS).

“No Brasil, a perda dos campos nativos aumentou nos últimos dez anos e não mostra sinais de redução significativa”, alerta E.V., da equipe MapBiomas Brasil e um dos responsáveis pelo monitoramento.

Argentina e Uruguai também perdem vegetação

A Argentina registrou a maior perda de vegetação nativa em termos absolutos: cerca de 4,8 milhões de hectares, uma redução de 12% em quatro décadas. A área transformada no país equivale a mais de 123 vezes a superfície ocupada pela região metropolitana de Buenos Aires. A degradação no Pampa argentino está diretamente associada à expansão das monoculturas, segundo D.A., do Instituto Nacional de Tecnología Agropecuaria (INTA).

No Uruguai, a perda de vegetação nativa foi de 2,8 milhões de hectares, uma queda de 19% entre 1985 e 2024. A área agrícola aumentou 136%, passando de 1,4 milhão para 3,4 milhões de hectares. A silvicultura também cresceu no país, com alta relativa de mais de 900%, passando de 117 mil hectares para 1,3 milhão de hectares no período.

“Em nosso país, a perda dos campos nativos resultou de um efeito combinado do avanço da agricultura e da silvicultura”, destaca S.B., da Faculdade de Agronomia da Udelar e coordenador do MapBiomas Pampa no Uruguai. Juntas, as áreas de silvicultura e de lavouras de grãos respondem por 4,7 milhões de hectares, ou 26,5% de todo o território uruguaio.

Diversidade ameaçada e papel na regulação hídrica

A região pampeana cobre cerca de 109 milhões de hectares, o equivalente a 6% da América do Sul, e abrange o sul do Brasil, todo o Uruguai e o centro-leste da Argentina. Os campos nativos abrigam diversas espécies de gramíneas e ervas, além de fauna adaptada e endêmica, como o quero-quero, o tuco-tuco-das-dunas, o gato-palheiro-pampeano e o sapinho-admirável-de-barriga-vermelha. Em um metro quadrado de pastagem, é comum encontrar de 10 a 60 espécies de plantas.

O lançamento dos dados da Coleção 5 do MapBiomas Pampa ocorre no Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores, declarado pelas Nações Unidas, com o objetivo de reconhecer o valor ecológico e social desses ecossistemas.

Vegetação nativa como proteção contra extremos climáticos

E.V. chama atenção para o papel da biodiversidade do Pampa na regulação do ciclo da água e no controle da erosão, atuando como uma espécie de esponja natural. “Quando as monoculturas avançam muito, reduzindo substancialmente as áreas de vegetação nativa, florestal, campestres ou de banhados, há uma perda da função de regulação da vazão dos arroios e rios da região”, aponta o pesquisador.

O Pampa também integra a identidade e a cultura regional, sendo base de sustento para pecuaristas familiares, indígenas, quilombolas e povos ciganos. A degradação da vegetação nativa ocorre em um contexto de extremos climáticos cada vez mais frequentes e intensos na região, consequência direta das mudanças climáticas causadas pela ação humana.

“O efeito da vegetação nativa para atenuar os efeitos danosos desses fenômenos tem sido pouco valorizado e quase não existem medições quantitativas do quanto a perda dessa vegetação impacta a intensidade das enchentes. Mas impacta e muito. Manter a vegetação nativa é um tipo de solução baseada na natureza, que não depende de obras caras de engenharia que muitas vezes nem funcionam conforme projetado ou causam mais impactos negativos do que benefícios”, acrescenta E.V.

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