Brasil é vulnerável a crise global de alimentos, aponta estudo
Um novo relatório do banco J.P. Morgan coloca o Brasil entre as economias mais vulneráveis a uma nova onda de inflação alimentar global. O país, que é um dos maiores exportadores de alimentos do mundo, enfrenta riscos que vão de conflitos geopolíticos a fenômenos climáticos, que podem pressionar os preços nos supermercados nos próximos anos.
A sobreposição de choques que ameaça a produção
A análise aponta que a combinação de um El Niño de forte intensidade com a alta nos preços da energia, influenciada pelo conflito no Oriente Médio, pode adicionar entre 1,3 e 1,5 ponto percentual à inflação mundial de alimentos. O estudo estima que, isoladamente, o fenômeno climático poderia acrescentar cerca de 0,7 ponto percentual.
Esse cenário pode levar a uma taxa de inflação anualizada de alimentos próxima de 5% no primeiro semestre de 2027, com um impacto de 0,6 ponto percentual no pico e de aproximadamente 0,3 ponto percentual na média global daquele ano. O alerta não indica uma falta absoluta de comida no mundo, mas sim o risco de perdas produtivas, restrição de oferta e alta expressiva de preços, o que agravaria a insegurança alimentar, especialmente em países onde a comida pesa mais no orçamento familiar.
Há uma defasagem entre o choque e o seu efeito no bolso do consumidor. O maior impacto de um El Niño sobre os preços costuma aparecer entre quatro e oito meses após o evento climático. Isso significa que problemas no Pacífico ou no Estreito de Ormuz hoje podem se refletir no supermercado apenas em 2027.
Dependência crítica de insumos importados
A vulnerabilidade brasileira tem uma razão específica: a dependência externa de fertilizantes. O país importa cerca de 85% dos 41 milhões de toneladas de fertilizantes que consome anualmente. Em 2025, estima-se que 41% da ureia importada, quase 3 milhões de toneladas, tenham passado pelo Estreito de Ormuz.
A cadeia de transmissão é direta: um conflito no Oriente Médio eleva o risco logístico na região, encarece o gás e a ureia, aumenta o custo do produtor, pressiona a produtividade e, por fim, torna a comida mais cara. Ser uma potência em produção de commodities não é o mesmo que ter segurança alimentar garantida.
O país construiu uma capacidade extraordinária de produzir e exportar, mas ainda não desenvolveu a mesma resiliência para os insumos necessários à produção e para o acesso da população aos alimentos.
Sinais que já estavam no radar
Três movimentos, que antes pareciam desconectados, agora se somam em uma mesma cadeia de riscos: a crise no Estreito de Ormuz, a estratégia da China e o retorno do El Niño.
O impacto de Ormuz nos fertilizantes
O debate sobre a crise no Irã costuma se concentrar no preço do petróleo. No entanto, pelo estreito circulam também gás natural, um dos principais insumos dos fertilizantes nitrogenados, e outras matérias-primas. O diesel move máquinas e caminhões, e a energia é essencial em toda a cadeia, da produção à distribuição. Uma crise energética, portanto, rapidamente se transforma em crise agrícola.
A nova rota da China
A China, maior compradora de soja e carne bovina do Brasil, colocou a segurança alimentar no centro de seu 15º Plano Quinquenal. O país planeja ampliar sua produção de grãos para cerca de 725 milhões de toneladas, investindo em tecnologia, biotecnologia e diversificação de fornecedores. Projeções indicam uma possível redução de 25% nas importações chinesas de soja até 2030, um movimento que representa uma mudança estrutural para o Brasil, que hoje responde por 71% da soja importada pela China.
Enquanto a China busca reduzir sua dependência externa, o Brasil segue um caminho oposto, mantendo uma alta dependência de um insumo crítico como o fertilizante.
O retorno do El Niño
O fenômeno climático altera os padrões de chuva e temperatura no Brasil, podendo causar excesso de chuvas no Sul, seca no Norte e Nordeste, mudanças nas janelas de plantio e aumento de pragas. O problema se agrava quando todos esses riscos se sobrepõem, elevando o custo da comida.
Caminhos para uma estratégia de segurança alimentar
O alerta do relatório pode servir como um ponto de partida para o Brasil desenvolver uma estratégia nacional de segurança alimentar e resiliência produtiva. Uma das frentes é a transformação da capacidade agrícola em capacidade agroindustrial, agregando valor aos produtos por meio do processamento doméstico e da produção de alimentos e bioenergia.
Outra frente é tratar a produção de fertilizantes como infraestrutura estratégica, com metas para a produção doméstica e o uso de bioinsumos e tecnologias que aumentem a eficiência. O objetivo não é uma autossuficiência artificial, mas reduzir a dependência de 85% e diversificar fornecedores e rotas logísticas.
Por fim, é essencial diversificar o sistema alimentar, fortalecendo cadeias de frutas, legumes, feijão e alimentos regionais, além de reduzir perdas e melhorar a armazenagem. O Brasil tem condições de se tornar uma potência em agricultura regenerativa e de baixo carbono, mas precisa agir para não depender de um único corredor de transporte ou de um único comprador para seus grãos.
A questão central é se o país vai esperar que todos os choques cheguem juntos ao prato ou se vai usar sua força agrícola para construir uma verdadeira estratégia de segurança alimentar enquanto há tempo.
